George
Orwell, em sua obra 1984, fez um trabalho sensacional – incrível. Na criação de
sua obra, ele se preocupou em dar uma vivacidade, detalhada, de uma vida sob um
Estado Totalitário. Com personagens do seu romance, Winston Smith e Julia, na
luta contra o Grande Irmão, o partido, nos demonstram como a grande mídia das massas,
os governos, a educação, pela revolução, podem mudar, e manipular, uma
sociedade, como uma estratégia Gramsciana da criação da hegemonia de pensamento.
Além do poder de vigiar e punir os indivíduos, jogar uns contra os outros e
mudar toda uma história.
Na
romance contado por Orwell, inicia-se com a história do personagem Winston, em
alusão aos regimes totalitários, em que vive numa sociedade liderada por um
partido, que chegou ao poder através de uma revolução do proletariado. Os
líderes da revolução estão no poder, e comandando a sociedade como bem entendem
- não por bem do povo, ou seja, dos proletários, quem eles prometeram proteger,
mas de si mesmos.
Quando
se fala de regimes totalitários, é comum pensar no horror dos acontecimentos do
século XX, como o Nazismo de Hitler, por exemplo, ou o Fascismo de Mussolini,
mas esquecido, de forma proposital, pelos intelectuais da atualidade, os
arautos do saber, do regime da Stálin, o comunismo – que foi mais cruel que
Hitler. Como dito por ARON (1955) os intelectuais ignoram por uma questão
ideológica, a saber:
[...] Na Rússia e na China e não na
Inglaterra ou na Alemanha, partidos pouco numerosos na origem, e recrutando em
grande parte os intelectuais, influíram no destino dos povos e, uma vez donos
do Estado, impuseram uma verdade oficial. Na Ásia ou na África, os diplomados
tomam hoje a direção dos movimentos revolucionários ou dos Estados recém-promovidos
à Independência.
Assim,
à medida que avançamos na leitura da obra, observamos a grandeza do autor na
descrição dos acontecimentos ao personagem. Desde o detalhamento de uma poeira
no chão, até um aroma de um café tradicional. O autor nos leva ao cenário em
que tudo acontece em movimento e estático, em tensões contra o partido, contra
a polícia das ideias – que buscava identificar o pensamento-crime, este também
utilizado no nazismo e comunismo.
Na
trama, encontramos a mesma ideia do Panóptico de Jeremy Bentham, trazido também
em Vigiar e Punir, de FOUCAULT (1975): “[...] o poder deveria ser visível e
inverificável. Inverificável: detento nunca deve saber se está sendo observado;
mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo”. A Teletela, que fazia esse
papel na trama, vigiava sem parar, demonstrando a vigilância como poder do
Grande Irmão, que, constantemente dito na obra, estava sempre de olho em você. Atualmente,
percebemos com tanta frequência o poder do Estado sobre a vida do indivíduo,
que comparado com outras épocas, não tinha acesso aos dados pessoais e coisas
tão intimas, controla desde o nascimento até sua vida nas redes sociais.
A
Polícia das ideias, como dito anteriormente, buscava o pensamento-crime, é
perfeitamente o que observamos em nossa atualidade: o politicamente correto. As
pessoas deixam de dizer o que pensam – mesmo sendo verdadeiros - para que os
demais não se sintam ofendidos. Omitindo, assim, a verdade, para não perder
aprovação social, e vivendo numa mentira coletiva, mesmo consciente disso. No
mais, a polícia das ideias utilizava os amigos próximos, os filhos e vizinhos
para denunciar aqueles que tivessem pensamentos contrários aos dogmas do
Socialismo Inglês.
Na
obra, o personagem começa a perceber como o partido manipulou a sociedade por
muito tempo, mesmo ele sendo um membro do partido. Observara que a sociedade
havia perdido o sentimento, não havia mais amor ao próximo, haja vista que o
Estado absorveu a sociedade, e somente a ideologia do partido importava. Como
na descrição de uma cena do cinema, uma mãe e um bebê em alto mar, segurando
sua prole em seus braços, e sustentada numa proa. O helicóptero do partido
bombardeou a mulher com sua criança, enquanto a plateia sorria e admirava a
dilaceração do corpo. Assim, a ideologia usurpava a consciência dos indivíduos,
tudo pela causa, não importando o meio. Semelhante ao que acontece no filme: O
doador de memorias (2014).
As
pessoas daquele país já não possuíam ideia de tempo e lugar que estavam. Não
sabiam se a Oceania estava em guerra com Lestásia ou Eurásia – importava
somente o que convinha ao partido. Era fácil para o partido controlar essas
informações, haja vista que possuía o controle sobre a mídia, a educação, e
infiltrados na sociedade para espalhar essas notícias, bem como alterações das
edições dos jornais, nos livros antigos, para que não fosse conflitante com os
interesses do partido no tempo atual, entre outros.
Outro
fator que chama bastante atenção nessa obra-prima: A sociedade igualitária. O
povo comum era chamado de proletários, mas aqueles que lideravam a sociedade
eram chamados de dirigentes do partido, que não era permitido nenhum tipo de
oposição. Enquanto eles controlavam a igualdade do povo, usufruíam dos
privilégios do alto escalão do partido.
O
partido detinha o poder sobre os jornais, sobre as informações que circulavam,
e alterando quando erravam suas previsões. Principalmente por terem controle
sobre a fala, dicionários, como as pessoas se comunicam, como no caso da
Novafala, e duplipensamento, que retiram das pessoas a liberdade de terem
pensamentos e expressões contrárias. Pois mediante a mudança no significado das
palavras que era possível mudança do pensamento. Como no dilema do partido,
liberdade significa escravidão; paz, guerra. Como o personagem Goldstein,
ex-líder da revolução, que pregoava paz, liberdade de expressão,
livre-comércio, era visto como um inimigo a ser abatido. Retiravam palavras que
poderiam dar fim ao partido, ou alteravam o significado dela, passando por uma
tradução ideológica. Assim como anunciado recentemente, a reedição das obras de
Machado de Assis, pela escritora Patrícia Secco, com objetivo de “facilitar” a
leitura, torna-la mais “palatável”, ou seja, irão reduzir Assis ao nível da
mentalidade média, e não elevar a mentalidade da sociedade para compreender o
autor, e reeditando imbuída de ideologia.
Por
vezes, é nessa cilada que caem alguns defensores das liberdades individuais,
pois esquecem que os preenchimentos de significado dessas palavras podem ser
facilmente alterados, como bem convier aos arautos da catástrofe. Não está
relacionada somente a uma questão de mercado, ou seja, de livre-mercado, mas o
fator cultural muito maior por trás desse processo, na qual esses agentes são
especialistas, pois não querem dominar somente o corpo, mas a mente. Enquanto
alguns acham que estão defendendo a liberdade, essa palavra pode ter sido
alterada para fins outros. Assim como na trama vivida por Winston, era
impossível alertar ao povo, pois mesmo vivendo numa ditadura, acreditavam que
era uma democracia – e muitos nem sabiam o que poderia ser. Era exatamente o
que Gramsci queria; criar uma hegemonia de pensamento, uma revolução cultural.
A
mentalidade totalitária está presente em todo lugar, querendo absorve as mentes
dos indivíduos. Na trama, talvez, possa ficar esperando a vitória do
personagem, mas na vida real, não sabemos onde se encontra o inimigo. Winston e
Julia lutam contra o Estado totalitário, contra o Grande Irmão, a teletela, a
polícia das ideias, e contra os inimigos-amigos. Uma obra fantástica, que nos
levar a compreender o mundo e a política, além de viver a poética e o mundo
fascinante da literatura e de seus detalhes. Um grande escritor, um profeta,
que nos leva muito além das letras.
REFERÊNCIAS
ARON, Raymond. 1955. O ópio dos intelectuais. Trad.de Yvone Jean. Brasília . Editora
Universidade de Brasília, (p. 209) 1980.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Trad. De Raquel Ramalhete.
42. Ed. Petrópolis, RJ: Vozes, (p.195, 2014)
Obra de Machado de Assis é
reescrita para facilitar leitura. Disponível em < http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/obra-de-machado-de-assis-e-reescrita-para-facilitar-leitura/>
Acesso em 08/11/16.
DOADOR
DE MEMORIAS (2014) Disponível em< http://www.adorocinema.com/filmes/filme-195540/>
Acesso em 08/11/16
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